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O desmaio não está muito afastado da morte, pois se morre quando o fogo que há no coração se extingue por completo, e só se cai em desmaio quando ele é de tal modo abafado que ainda permanecem alguns restos de calor que podem em seguida reacendê-lo.
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Ora, há muitas indisposições do corpo que nos podem levar assim a tombar em desfalecimento; mas entre as paixões apenas a extrema alegria, nota-se, dispõe desse poder.
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A languidez é uma disposição para relaxar e ficar sem movimento, que é sentida em todos os membros; provém, tal como o tremor, do fato de não irem suficientes espíritos para os nervos.
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Os tremores têm duas causas diversas: uma consiste no fato de chegarem às vezes muito poucos espíritos do cérebro para os nervos, e a outra de às vezes chegarem aí em demasia para poderem fechar bem as pequenas passagens dos músculos que, como já foi dito, devem ser fechados para determinar os movimentos dos membros.
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Não há nenhuma paixão que alguma ação particular dos olhos não declare: e isso é tão manifesto em alguns, que mesmo os criados mais estúpidos podem notar nos olhos do amo se este está zangado com eles ou não está.
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A primeira causa aparece na tristeza e no medo, assim como quando trememos de frio, pois estas paixões podem, da mesma maneira que a frialdade do ar, espessar o sangue de tal forma que não forneça ao cérebro bastantes espíritos para enviá-los aos nervos.
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A outra causa aparece amiúde nos que desejam ardentemente algo, e nos que estão fortemente comovidos pela cólera, como também nos que estão ébrios: pois estas duas paixões, assim como o vinho, fazem ir às vezes tantos espíritos ao cérebro que não podem ser daí regularmente conduzidos para os músculos.
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A tristeza, ao contrário, espreitando os orifícios do coração, faz com que o sangue corra mais lentamente nas veias e com que, tornando-se mais frio e mais espesso, tenha necessidade de ocupar nelas menos lugar.
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De sorte que, retirando-se das mais largas, que são as mais próximas do coração, abandona as mais afastadas, e, sendo as dos rostos as mais visíveis, isto o faz parecer pálido e descarnado, principalmente quando a tristeza é grande ou sobrevém protamente, como vemos no pavor, no qual a surpresa aumenta a ação que aperta o coração.
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E não consigo notar senão duas causas que façam os vapores que saem dos olhos se transmudarem em lágrimas. A primeira é quando a figura dos poros por onde passam é mudada por qualquer acidade que seja.
A outra causa é a tristeza seguida de amor ou de alegria, ou em geral de qualquer causa que leva o coração a impedir mais sangue pelas artérias.
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Não podemos tão facilmente impedir-nos de ruborizar ou empalidecer quando alguma paixão nos dispõe a tanto, porque tais mudanças não dependem dos nervos ou dos músculos e provêm mais imediatamente do coração, o qual se pode chamar a fonte das paixões, na medida em que prepara o sangue e os espíritos para produzi-las.
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Ora, é certo que a cor do rosto não vem senão do sangue, o qual, correndo continuamente do coração, colore mais ou menos o rosto, conforme preencha mais ou menos as pequenas veias que se dirigem à sua superfície.
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E então os pulmões também se enchem às vezes de repente pela abundancia do sangue que entra aí dentro e que expulsa o ar que costumam conter, o qual, saindo pelo gasnete, engendra os gemidos e os gritos que costumam acompanhar as lágrimas.
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A causa dos suspiros é muito diferente da causa das lágrimas, embora pressuponham, como essas, a tristeza; pois, ao passo que somos incitados a chorar quando os pulmões estão cheios de sangue, somos incitados a suspirar quando se acham quase vazios.
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Assim, a alegria torna a cor mais viva e mais vermelha porque, abrindo as comportas do coração, faz com que o sangue corra mais depressa em todas as direções e com que, tornando-se mais quente e mais sutil, infle moderadamente todas as partes do rosto, o que lhe dá um ar mais ridente e mais alegra.
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A alegria é uma agradável emoção da alma, na qual consiste o gozo que ela frui do bem que as impressões do cérebro lhe representam com o seu. Digo que é nessa emoção que consiste o gozo do bem.
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A tristeza é um langor desagradável no qual consiste a incomodidade que a alma recebe do mal, ou do defeito que as impressões lhe representam como lhe pertencendo. E há também uma tristeza intelectual que não é a paixão, mas que quase nunca deixa de acompanhá-la.
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O horror é instituído pela natureza para representar à alma uma morte súbita e inopinada, de sorte que, embora seja apenas o contato de um vermezinho, ou o rumor de uma folha tremulante, ou a sua sombra, que provoque o horror, sente-se primeiramente tanta emoção como se um perigo de morte mui evidente se oferecesse aos sentidos.
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O riso consiste em que o sangue que procede da cavidade direita do coração pela veia arteriosa, inflando de súbito e repetidas vezes os pulmões, faz com que o ar neles contido seja obrigado a sair daí com impetuosidade pelo gasnete, onde forma uma voz inarticulada e estrepitosa.
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A paixão do desejo é uma agitação da alma causada pelos espíritos que a dispõem a querer para o futuro as coisas que se lhe representam como convenientes. Assim, não se deseja apenas a presença do bem ausente mas também a conservação do presente, e demais a ausência do mal, tanto daquele que já se tem como daquele que se julga poder ainda colher no futuro.
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