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(entrevista e 10 poemas)

 

Judite Pimentel

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Da Iluminação

(ensaio fotográfico por Tiago Jonas) 

 

 

Sete questões sobre música com Barão e Negro Leo

 

Fotografia: Ted Amorim
 
Fotografia: Tainá Del Negri

Interzona: Charles Baudelaire narra em Os Paraísos artificiais a história de um brilhante violonista espanhol que acompanhava Paganini em concertos pela Europa. “Faziam ambos a grande vida vagabunda dos boêmios, dos músicos ambulantes, das pessoas sem família e sem pátria. Ambos, violino e guitarra, davam concertos por onde passavam. Erravam assim por diversos países. O espanhol tinha um talento tal que podia dizer como Orfeu: ‘eu sou o mestre da natureza’.” Além de magistral, o violonista também era “um grande beberrão”, e quanto mais embriagado, melhor parecia tocar. Pergunta: se o trovador e o violão são a base, o vinho seria o terceiro vértice da tríade musical perfeita?

Barão: Bem, eu costumo dizer que o vinho inspira os homens e excita as mulheres, portanto eu vejo, sim, como algo positivo os efeitos do vinho sobre o espírito da música, se você quer realmente saber. Interessante você citar a história do violinista Paganini, que é tão misteriosa e fascinante... É preciso reavivar os mitos! O mundo anda excessivamente prático e racional pro meu gosto, e a meu ver esse tipo de atitude implica diretamente na maneira de se sentir e de se conceber arte, o que acaba culminando nessa perceptível ausência de inspiração que vem assolando a música deste século. No meu caso, especificamente, uma quantidade razoável de vinho proporciona certa vivacidade de espírito que me permite lidar muito melhor com minha própria música, aprimorando a minha relação com as idéias que me ocorrem a respeito do que me cerca, tornando minhas composições bem mais fluentes e de certo modo mais verdadeiras e deveras fiéis ao meu próprio espírito real, intensificando consideravelmente todo o processo, tornando-o bem mais, digamos, primoroso...

 

 

 

 

 

Negro Leo: Não acredito nisso. De fato a droga possibilita uma experiência estética iluminadora que, ao iluminar, revela aspectos incongruentes daquilo que ilumina. Esse é talvez o poder revolucionário da droga, tem a ver com uma capacidade de desnaturalizar o mundo irremediavelmente. Essa irreversibilidade ou o cara experimenta como sublimação do real – porque senão ele enlouquece, e é aí que a droga pode adquirir um caráter quase religioso um tanto babaca – ou ele experimenta como tragédia (quando apenas é possível encarar o tédio da vida). A experiência com drogas é inesquecível. Mas não se lança uma luz em algo por essa ou aquela droga, nem uma ou outra droga é responsável por uma realização estética pujante. Esse entusiasmo com as drogas só engrossa a fila de hospitais psiquiátricos. Jobert de Carvalho e Vicente Celestino eram abstêmios. O enraizamento da idéia de arte como finalidade sem fim e do desinteresse como modo de fruição estética semearam um fértil terreno para a produção estética amparada em drogas durante o final do século XIX e todo o século XX. A estandardização da experiência estética movida à droga nas sociedades de consumo criou mesmo uma nova sensibilidade, essas festas de música eletrônica e a própria música eletrônica, que é uma qualidade de música diferente, parecem requisitar esse novo tipo de sensibilidade (movido à ecstasy e outras drogas sintéticas). Eu usei drogas por conta dos surrealistas, dos Beatles, dos tropicalistas, de uma porção de referências que justificaram o efeito da mistificação do poder criativo e revelador das drogas, que eu senti por mim mesmo e que culminaram na minha particular reordenação ética do mundo.

Interzona: Dos velhos e tradicionais aditivos para os novos:

“From the city runs electricity in my brains
From the cars runs gasoline up in my veins
Baby, baby, baby, I'm the electric man
Come and get a shock, I'm the electric man”

Crazy pop rock - Gilberto Gil

"Faço do meu canto a neura existencial. O conteúdo do cotidiano, o dia-a-dia da vida. A eletrônica está substituindo o coração. A inspiração passou a depender do transistor, o poeta, de aço, de poesia programada... é demais pra meus sentimentos, tá sabendo?"

Nega - Baiano e os Novos Caetanos

“Acho que os dois tipos básicos de música nativa deste país são a música negra, blues, e a música folclórica trazida da Europa (acho que a chamam de música country ou sons de West Virginia). Elas são as correntes principais da música americana de raiz. Mas parece, como há dez anos, que o que eles chamam de rock and roll é um tipo de mistura dessas duas formas. Acho que o que acontece agora é que o rock está desaparecendo. E todos estão voltando às raízes de novo, alguns estão voltando para o country, alguns para o blues básico. Acho que em quatro ou cinco anos a música da nova geração será uma síntese desses dois elementos e uma terceira coisa, e poderia confiar pesadamente, em eletrônicos, tapes. Posso prever talvez uma pessoa com muitas máquinas, tapes, aparelhos eletrônicos, cantando ou falando e usando máquinas.”

Jim Morrison (entrevista ao programa "Critique" PBS – 1969)

A eletrônica ainda é a pulga atrás da orelha da música moderna?

Barão: A música, de um modo geral, passou por um processo de evolução que considero natural, e a eletrônica faria parte disso inevitavelmente. Já que as pessoas basicamente utilizam a tecnologia pra simplificar suas vidas, então por que aprender a tocar um instrumento se você pode simular um som apertando um botão? Por que você precisa ir a uma biblioteca se você pode fazer sua pesquisa apenas clicando na porra de um simples botão? E foi com esse tipo de mentalidade e com o advento de artifícios cada vez mais modernos que a música começou a ficar confusa, perdendo-se numa profusão de combinações ilimitadas, gradativamente vendendo sua alma para a máquina e as facilidades tecnológicas que ela proporciona, acabando por nos conduzir ao atual estado amorfo da música moderna, fatalmente. Acho que já é hora de trilhar um pouco o caminho inverso... Eu sinto muita falta de boas melodias e de letras relevantes na atualidade... Não sou, de modo algum, totalmente contra a adição de elementos eletrônicos à música, não, mas penso que é preciso haver um meio termo, sabe? Pra dizer a verdade eu acho que toda a música atual carece de um retorno às suas próprias raízes, é isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Negro Leo: Se você fala em pulga atrás da orelha como inquietação, sim. Agora, se tem o sentido de desconfiança, não acho, não. Quando a gente fala em eletrônica deve tomar o cuidado de considerar o que é meio e o que é obra, digo isso porque, embora acredite que uma técnica determine seu modo de realização, não se deve esquecer que, às vezes, apenas uma parte do processo de liberação do repertório significante de uma técnica chega à luz, a outra é mantida como se seus efeitos nunca tivessem sido sentidos. Assim, os tipógrafos do século XVI imitavam modelos de caligrafia de um momento anterior. Um teclado tenta simular timbres de instrumentos acústicos. Não é demais pensar que a realidade inteira tornou-se eletrônica, e, no entanto, ela ainda não chegou a ser experimentada com radicalidade. Eu estou querendo dizer que você pode gravar um quarteto de cordas, mas pode “criar” sons que nunca foram ouvidos, pode manipular frequências e timbres que nunca foram sondados. A reprodução fonográfica abriu caminho para a música concreta e a eletrônica abriu caminho para a imaginação. A gravação do som, sua impressão (o registro) e sua reimpressão numa mídia de alta difusão são partes do processo social de produção da música moderna. O eletrônico, em certo sentido, é a destruição da técnica de reprodução fonográfica em todas as suas etapas. Você pode criar um som digitalmente, registrá-lo numa mídia igualmente digital, um arquivo de computador, e atualizar aquilo infinitamente num mercado regulado ou não. No caso Wikileaks, os sítios-espelhos são um bom exemplo. A eletrônica é a realidade em que qualquer música se movimenta há décadas, mas raros artistas assimilaram suas possibilidades criativas, sua novidade na elaboração do som. As experiências da música acadêmica e da música popular com a eletrônica parecem se encontrar em algum lugar onde essas próprias definições carecem de sentido. No mais, a tese um tanto formalista de Mcluhan, segundo a qual o meio é a mensagem, dificilmente vai ser observada na eletrônica ou em qualquer outra técnica, sem ressalvas de natureza econômica e cognitiva. E é sobretudo nesse sentido que entendo a eletrônica como uma pulga atrás da orelha da música moderna, parafraseando Augusto de Campos citado por Caetano Veloso, “quem decide o que é melhor pra música são os melhores músicos”, o mercado cuida de sua própria saúde. 

Interzona:  Da mesma forma que dizem que há mais livrarias em Buenos Aires do que no Brasil, talvez possamos dizer que existem mais gravadoras independentes em Londres do que em todo o território brasileiro. Apesar da facilidade tecnológica atual, esse nicho de mercado continua pouco explorado. Iniciativas que unem em um só projeto apresentação musical, registro fonográfico e prensagem de discos (artefato essencial para a documentação historiográfica do grupo), são raras e geralmente temporárias. A internet é o messias que irá salvar os artistas independentes do ostracismo e esquecimento ou será que o dito bíblico continua valendo: “estreita é a porta, e apertado o caminho que leva para a vida, e são poucos os que acertam com ela”?

Barão: Tem os dois lados da moeda. Por um lado a indústria fonográfica cobrava preços exorbitantes pelo disco físico, o que era realmente inadmissível, mas em contrapartida, em minha opinião, a internet tornou a música quase totalmente descartável. Atualmente as pessoas baixam mais músicas do que geralmente conseguem escutar, e com isso acabam não dando a devida importância à sua qualidade. Antigamente, na era dos LP’s, por exemplo, as pessoas se reuniam nas casas umas das outras pra ouvir um disco recém-lançado, e o pessoal realmente se interessava em saber quem havia produzido cada disco, quem havia escrito cada canção, era um verdadeiro culto à música. Hoje em dia tudo isso vai passando batido pra maioria, o que me leva a crer que nem os próprios músicos - especialmente os já famosos - andam se esmerando tanto pra lançar um material realmente bom. Festivais como o Caça Bandas* são fabulosos, pois servem principalmente pra separar quem realmente está a fim de levar a coisa a sério de quem não está... Tem muita banda legal perdida nesse universo da internet, mas a porta do reconhecimento continua estreita pra elas. A proposta desses festivais é ótima, mas continua sendo uma iniciativa ainda muito pouco explorada. A internet ajuda muito, mas não vai salvar porra nenhuma!

*Festival do qual Barão participou com o grupo Blood Chip, primeiro ganhador de 2011, mais informações: http://noticiagrv.blogspot.com/2011/05/blood-chip-e-o-primeiro-escolhido-do.html ou  http://www.grv.art.br/cacabandas/

Negro Leo: Não é tanto uma questão de independência e sim de reorganização do mercado. Neste momento a internet é decisiva para a consolidação de certa independência. O Napster foi uma realidade possível enquanto a internet era testada economicamente em escala global, quando as transações comerciais de música pela internet eram desreguladas. Hoje há maneiras de proteger um arquivo contra a pirataria, mas a indústria fonográfica jamais se recuperará desse golpe; ao contrário, para manter parte do que perdeu, é obrigada a entrar na roda dessa nova reorganização do mercado e cortar gastos, a começar pela cocaína. Há acordos comerciais entre o Youtube e gravadoras, a coisa está mudando. As barreiras políticas são um exemplo de regulação pelo estado, basta o caso Google-China como exemplo. Outras regulamentações econômicas estão em curso. Nenhum meio de comunicação é livre a despeito do modo de produção econômico, essa coisa da internet como “messias dos independentes” sempre foi mistificação. Sem dúvida a internet não vai redimir os esforços por independência, mas ficou mais fácil construir redes comerciais paralelas, formar público paralelamente e construir uma crítica alternativa dos produtos da indústria. Enfim, eu acho que a indústria da música está mudando, e isso tem a ver com a internet sim, tem a ver com a presença revolucionária de uma nova tecnologia, com as transformações sociais que desencadeia.

Acervo pessoal Barão

 
Fotografia: Ava Rocha

     

Inerzona: A sociedade moderna deve à Grécia antiga quase tudo. Dela também herdamos a cultura agonística – o embate salutar, os jogos, o combate discursivo e público que rege a democracia, na qual o melhor é o vencedor. Schopenhauer, porém, diz, em relação ao mercado editorial de sua época, que há uma espécie de complô entre escritores, editoras e jornalistas com o fim de fazer prevalecer “as cabeças ocas”. Prêmios como o da MTV, do Multishow etc., que privilegiam o mercado e não a arte, parecem comprovar bem essa tese, pois é evidente que os vencedores quase nunca são os melhores. Há vias musicais além da estética mercantil e de entretenimento? Ou seja: é possível e aprazível para um músico passar ao largo disso e constituir uma obra?

Barão: Durante anos foi possível conciliar as duas coisas, mas talvez devido à ruína da indústria musical, os meios de comunicação, que sempre mantiveram uma estreita relação com as gravadoras, passaram a ser ainda mais apelativos e a dar muito menos importância à boa música do que antes. Eu defendo que deve haver música pra todo o tipo de gente e pra todos os gostos, mas daí a monopolizar praticamente todo o espaço pra impor esse lixo comercial pra todo mundo já se torna um sério insulto à nossa inteligência e tolerância. Pra nós que somos do ramo da música independente e não nos encaixamos nessa estética pré-estabelecida imposta pela indústria as coisas se tornam complicadas. É uma peleja dos infernos, mas eu ainda prefiro acreditar que é possível se dar bem fazendo um trabalho realmente autêntico e de qualidade, apesar disso tudo.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Negro Leo: Olha, essa coisa do “complô” é natural porque a produção é organizada e no capitalismo a livre concorrência é um mito. O monopólio é uma coisa terrível, mas se você pensar bem, aquilo que é democrático no capitalismo, que nivela tudo pelo lucro, por mercados consumidores e que faz emergir o grotesco, o popular, justamente por demanda popular, pela existência desse mercado consumidor, pode servir também ao controle da produção através de uma espécie de cartelização cognitiva, vide funk na programação dominical de todas as emissoras de tv. Ao mesmo tempo, eu não acredito em estética mercantil, ou pior, eu só acredito em estética mercantil, ou você conhece algum artista que não pretenda “trocar” sua obra no mercado? O artista no capitalismo precisa incorporar o mercado como um dado estratégico na sua produção, não é um problema de diluição da obra ou de concessões, mas de estratégia que em nenhum tempo foi tão necessária à produção estética. Sem dúvida, em qualquer tempo, a arte aconteceu dentro de limites sociais precisos e convencionou precisamente aquilo que chamou arte a cada momento. Eu acho que só é possível constituir uma obra num contexto dado, e dado o contexto de produção, não se pode passar ao largo dele se se espera produzir alguma coisa; logo, se um artista pensa em produzir fora desses limites, nem sequer o reconhecimento social de artista ele vai experimentar. A coisa está mudando um pouco: é estranho que o mercado de shows no Rio de Janeiro seja um tanto auto-regulado e dependente de iniciativa privada de alto risco. O “grande capital” foi drenado da música com o colapso das grandes gravadoras que articulavam toda a cadeia produtiva de música (do disco ao show). Nesse vácuo, alternativas de reorganização do mercado de música vem sendo testadas, como o “Fora do Eixo”, que funciona como uma rede empresarial que dá esteio aos artistas independentes, e os novos mecanismos de financiamento como o crowdfunding.  Essa coisa do melhor, do vencedor, na sua pergunta, eu acho complicado porque a recepção estética, por mais que se justifique por estatísticas sociais, é um mistério de identidade que não pode ser reduzido à identificação de classe, tipo “moro em uma favela, logo gosto de funk, rap, pagode”. Esses prêmios servem para mostrar o quanto se esconde atrás da cultura de massas a homogenização da experiência estética. Justin Biber e Michael Jackson são heróis trans-sociais, acima do bem e do mal da luta de classes.

Interzona: Ainda com Schopenhauer: segundo o filósofo alemão “a influência da música é mais poderosa e mais penetrante que a das outras artes: estas exprimem apenas a sombra, enquanto que ela fala do ser.” Linguagem universal, compreendida imediatamente, intuitivamente, a música, sem dúvida, é a mais cultuada, praticada e banalizada das artes. Os clichês abundam, e a margem de criação e experimentação é pequena. Como não ser um músico claudicante e trilhar com leveza esse campo minado?

...

Negro Leo: Tem que ser cínico e aprender a sorrir amavelmente. 

Interzona: Segundo Tom Zé: hoje, também pelo esgotamento das combinações dos sete graus da escala diatônica [mesmo acrescentando alterações e tons vizinhos] esta prática desencadeia, sobre o universo da música tradicional, uma estética do plágio, uma estética do arrastão. Podemos concluir, portanto, que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a era do plagicombinador, processando-se uma entropia acelerada.

(encarte do CD Com Defeito de Fabricação.)

A estética do plágio, da releitura, da recombinação, do sampler pode ser considerada a estética contemporânea predominante e, por isso mesmo, uma espécie de vanguarda com o pé no mainstream?

Barão: Eu discordo. É como na literatura. Muitas vezes não é a história em si, mas sim o modo como você a conta que realmente faz a diferença. Eu não acredito nesse negócio de esgotamento de combinações de escalas, não. Dizer isso é o mesmo que assumir um esgotamento criativo, na verdade. Esse pessimismo fatalista é o que está arruinando a verdadeira autenticidade da música contemporânea. Se esse tipo de mentalidade prevalecesse, iria acabar por nos conduzir a uma derrota criativa sem precedentes, e, isso sim, seria gravemente preocupante. Compor uma música pra mim é como parar o tempo... É eternizar um momento, uma noite, um sentimento, é tudo muito pessoal e autobiográfico, ao mesmo tempo que universal. As minhas canções falam sobre desejo, dor, descontentamento, esse tipo de coisa... Qualquer pessoa já viveu isso, assim como qualquer artista já sentiu e escreveu sobre isso em alguma circunstância, mas eu o faço a meu modo, e é isso que conta no final. Eu sou a favor de se rehumanizar a música, e o segredo, pelo menos pra mim, está em ser fiel a si mesmo e às suas próprias inspirações, sacou?

 

 

 

 

 

 

 

 

Negro Leo: Definitivamente não concordo com Tom Zé porque a música é um problema do ouvido antes de ser matéria da música tradicional. Eu chamo de ouvido a própria linguagem da música compreendida tridimensionalmente como aparelho auditivo, memória e cultura. O ouvido transcende a barreira da formação musical conformado nela, mas minha abordagem é na direção de um ouvido triplamente qualificado enquanto sentido, memória e educação musical (cultura). Ao ouvir um som qualquer, o ouvido solicita, simultaneamente, essas três qualidades. As revoluções harmônicas, as revoluções no campo da teoria musical foram possíveis apenas porque o ouvido já foi colocado num estado de abertura. Primeiro o som como sentido, depois como resultado de abstração lógica e herança cultural. Bem, isso é uma aparente contradição da apreensão simultânea, mas, na verdade, esse novo processo cognitivo criou uma abertura real pro ouvido, pra sua manifestação originária enquanto sentido, manifestação, por assim dizer, pré-mnemônica, primitivo-utópica. É lógico que este processo está em curso a mais de cem anos e que, portanto, já se cristalizou em memória e formação musical. Sendo assim, não devemos buscar a novidade onde ela já é um dado. De qualquer maneira a abertura permanece como esse novo processo cognitivo onde a música deve se virar. Se o critério de Tom Zé é “combinações dos sete graus da escala diatônica (mesmo acrescentando alterações e tons vizinhos)”, eu realmente não vejo nenhuma vanguarda na estética do plágio. A preocupação fundamental da música deve ser o som, o som bruto. É assim desde sempre, mesmo antes da abertura da técnica fonográfica ou de Russolo. Beethoven é um grande artífice do ouvido também porque inventou diversas modalidades de orquestração. A estética do plágio, explicada por Tom Zé, é de uma teleologia absurda, nos coloca diante do fim da música (tradicional), um impasse que ele propõe resolver pela recombinação de todo repertório musical do passado. Não haverá fim da música nem em câmaras anecóicas.

Interzona: Num momento em que a tecnologia se tornou uma obsessão e atinge todos os âmbitos artísticos, do circo ao avant-garde, quando músicos escondem suas fragilidades por trás de uma mega infra-estrutura pirotécnica sonora e visual, o retorno ao básico, ao primitivo, ao tribal é desejável ou, como previram e anteciparam Kraftwerk ao colocar robôs no palco, esse é de fato o futuro dá música?

Barão: Não vejo problema nas mega infra-estruturas, mas, enquanto apreciador de música, o que eu acho inconcebível é quando toda essa parafernália visual e tecnológica se torna mais importante do que a musicalidade do artista. Quanto ao futuro da música, eu escolhi acreditar que acabará rolando algo além de música totalmente robotizada, mas, para que isso aconteça, eu penso que deveriam começar a estimular as crianças a dedilhar algo além dos seus joysticks no Guitar Hero e encorajá-las a empunhar guitarras de verdade... Esse seria um bom começo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Negro Leo: Olha, é engraçada essa pergunta no contexto de minhas últimas apresentações, porque em maio do ano passado eu juntei vários músicos e batizei a banda de Ideal Primitivo. O conceito de ideal primitivo estava relacionado a toda a problemática do ouvido, ao free jazz, etc, tinha a ver com um retorno àquilo, na música, que é antes da memória, ao estado bruto da audição, era uma referência ao Ornette Coleman, aos seus harmolodics e harmonic unison, ao Russolo, ao Guilherme Vaz, que eu acabara de conhecer. Quando resolvi usar o nome ideal primitivo, foi porque, como não sou letrado em música e não domino a técnica de nenhum instrumento, preciso muito da memória pra arquivar um conhecimento produzido, uma música, e os músicos, letrados, por sua vez, não precisam da memória, podem acessar uma informação na partitura, na teoria. Mas o dado é que eles, liberados da memória, podem se entregar ao livre improviso, por assim dizer, uma atividade pré-mnemônica. O livre improviso e a memória estão numa relação tal que a música liberada da memória através da escrita necessita retornar sob formas primitivas anteriores à memória como maneira de afirmar, num mundo cada vez mais letrado, a contingência da arte. Não se trata propriamente do primitivo etnográfico, mas do primitivo utópico (www.myspace.com/idealprimitivo). Mas isso, pra mim, justamente ao contrário da sua pergunta, é algo possível justamente pelo avanço tecnológico. A possibilidade do registro fonográfico abriu caminho para a gravação de sons inimagináveis na música, quer dizer, a técnica de reprodução do som criou uma nova sensibilidade, uma possibilidade de recepção e produção estéticas de outra qualidade, que incorporou essa abertura às novas sonoridades. Agora, não existe uma única direção para o futuro da música, isso não existe até porque o repertório da música tradicional ainda não está esgotado. Uma abordagem a partir do ouvido é sempre mais realista. Eu vou gravar um disco de composições tradicionais, meus autoestudos, vamos ver se ele vai aparentar algum esgotamento.

     

  http://www.myspace.com/idealprimitivo
   
 
 
Tom Zé e a Estética do Plágio