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          O Centro

          Prólogo

          De todos os nossos traços, gostamos mais daqueles que nos são desconhecidos. 

***

          O velho sempre fora cheio de surpresas, aquilo, no entanto, era demais. Surgiu como um ente infernal e se foi como um sonho extravagante. Incumbido de decifrar o caso, a segui até a entrada do cemitério e a interpelei. Que suas respostas fossem tão enigmáticas como a sua presença era algo tolerável. Mas ouvir de seus lábios "O primogênito talentoso", "O acordo prossegue" e receber seu endereço no santinho com a cara bonachona e sorridente do velho, me fez perder as estribeiras. Senti a presença do demônio naquele ato. 

          No meio do pretume estéril, um ramalhete insinuante de flores. Mesmo que o preto estivesse fora de moda, mesmo que fosse parte de uma prática agourenta, vestir-se com tão bela e clara estampa e ribombar com seu corpo roliço na capela de um morto velho? Entrou cautelosa, com os olhos vedados por um charmoso óculo, e todos acharam que a coitada tinha se enganado.

Fotografia: Luis Furtado

Sentida como todos, mas deslocada. Melhor estaria numa capela de luxo, a velar a morte de algum empresário grã-fino ou playboy bem apessoado, de um artista ou gangster morto numa emboscada. Não a um velho alcoólatra e mulherengo... É! Mulherengo! Mas isso era coisa do passado, quando o velho era esbelto e talentoso no xaveco. Além do mais era moça jovem. Nem dinheiro ela poderia ter arrancado dele. Aquilo era mesmo uma patifaria.

"Por favor, me desculpe. Mas quem é a senhora?"

"Ah, o primogênito."

         O primogênito, o primogênito. É ou não é coisa do diabo? Era a única explicação. O velho estava metido com coisa feia. Culpa daquela empregadinha negra que o introduziu no Centro. Aquele endereço não era dela coisa nenhuma. Devia ser do Centro. Seria fácil checar. Mas o medo me paralisou por meses. E, por vezes, até esqueci aquela história absurda. Como todos, aliás. A anedota do velório: uma moça jovem de moda entrou na capela do velho por engano. Mas eu sabia e tremia quando escutava de lembrança a voz da desconhecida.

         Estilo irrepreensível, bela como um anjo. O rosto reluzia. Tudo voltou à tona quando a reencontrei... Ou será que foi ela que me reencontrou? Eu a segui... Ou será que foi ela que me seguiu?

         As viúvas do velho, mesmo distantes nos últimos tempos, maldisseram a desconhecida. Julgaram mau gosto, arrogância, exibicionismo, desrespeito, pecado exibir-se tão chamativa na capela de um velho. Como se a vida se insinuasse assanhada no antro de uma morte sem ressurreição. E os filhos, netos, os poucos amigos, a corja masculina não despregaram o olho da moça, e mesmo as viúvas, e tudo mais, até do defunto ela roubou a atenção. Como fazia agora no mercado popular. Senti desespero quando a perdi de vista. Mas o destino ou o demônio estavam atentos e prestativos, e me vi cara a cara com ela novamente.

         "César?"

Acho que a sobrecarga de emoções do velório me fez ver coisas. Seu rosto não era jovem, nem seu corpo enfim, ela talvez fosse apenas uns dez anos mais nova que meu pai. Ainda assim continuava bela e viçosa.

         "César?"

Uma vertigem se apossou do meu corpo, ou seria já efeito da presença demoníaca? Virei-me tonto e dei de ombros para desabar pouco depois na cadeira de uma lanchonete. Ela me auxiliou com água e carícias. Ela me conhecia. Eu não.

         "César. Desculpe. Não queria perturbá-lo."

         "Como você sabe meu nome? Quem é você?"

          "Fui uma grande amiga do seu pai."

          "Você é do Centro não é?"

          "Centro?"

          "É. Do centro de macumba. Foi a Carmela que os apresentou, não foi?"

          "Oh, César."

          "Ela sorriu, virou o rosto por alguns instantes e desconversou."

          "Como você está? Você me parece extenuado. Por que não me procurou?"        

          "Por que eu a procuraria? Não a conheço."

          "É verdade. Somos muito tolos. Esperamos que as coisas se resolvam por si mesmas. É confiar demais... No entanto, eis-nos aqui."

          Eis-nos aqui. Eis-nos aqui. Era verdade. Aquilo também me espantava. Algo me fazia perder a respiração, como nos tempos de garoto virgem frente a uma mulher de pujança.          

          "Não pertenço a centro de macumba nenhum, César." Disse ela finalmente. "Na verdade, o que fazemos é algo muito diferente, talvez até o oposto disso. Meu grupo, do qual seu pai fez parte por alguns anos, desenvolve práticas que podem ser consideradas... – terminou a frase ao pé do meu ouvido –... científicas"

          Suava e meu rosto deveria ter um aspecto doentio, pois ela se despediu às pressas.

          "Sei dos seus problemas e não quero afligi-lo, peço apenas que me procure. Fui ao cemitério apenas para vê-lo. Quero que se junte a nós. Sábado teremos um encontro. Venha, por favor."

          O Demônio! O Demônio! O que mais seria? Eles querem o primogênito. Estou perdido. Após esses pensamentos desmaiei. Fiquei convalescente alguns dias. Meu corpo estava estranho. Meus hábitos mudavam. Passava os dias absorto, pensativo. Os parentes julgavam ser uma depressão tardia causada pela morte do velho. Pensei ir à igreja e me confessar. Dizer que senti no dia do velório de meu pai um tesão desgraçado por aquela bruxa. Dizer que ao voltar para casa me masturbei, enquanto ouvia o choro contido da parentada. Dizer que estava possuído pelo demônio. Que nunca mais esqueceria aquela mulher.

          No dia anterior ao encontro estava exaltado. Não tinha idéia do que me esperava. Apesar de não sofrer qualquer ameaça, me senti coagido a ir. Uma casa no Cosme Velho. Provavelmente em algum lugar ermo, cheio de árvores, grilos, morcegos, luzes trêmulas em pórticos carcomidos. Cenas de sacrifícios assomavam em minha mente. A voz de Clarisse (como eu sabia seu nome, se ela nunca o revelou?) se insinuara em meus ouvidos nas noites insones posteriores ao velório - "César, o primogênito". Tudo me faziam sentir pavor. Mas a imagem de Clarisse, o desejo que sentia por ela, o seu olhar eram demasiado fortes para que eu desistisse. E no dia marcado fui vê-la.

          Fora o meu desespero e as diversas vezes em que pensei descer do ônibus, nada de estranho me aconteceu durante o percurso. Na entrada da casa nada vi de apavorante. Era uma casa bem cuidada, mas não suntuosa, nem carcomida, nada de exótico ou exagerado como imaginava. Apertei a campainha e um senhor muito bem vestido e educado me recepcionou. Senti ciúmes. Quem seria? Talvez o marido de Clarisse? Ao entrar na casa, vi sentados numa mesa de jantar redonda um grupo de pessoas, todos bem apessoados e exultantes. Clarisse não estava entre eles. Senti sua ausência como um golpe na cabeça. Fui enganado, pensei. Quem eram aquelas pessoas e o que eu estava fazendo ali? Esperava um encontro pessoal com Clarisse, não aquilo. Minha intranqüilidade deve ter afetado o anfitrião, pois este tentou me tranqüilizar.

          "César, que bom tê-lo aqui conosco. Entre, por favor. Antes de apresentá-lo ao grupo, gostaria de ter uma conversa particular com você, me acompanhe."

          Fomos a uma sala contígua, onde ele iniciou a conversação.

          "Esperávamos ansiosos por você, meu caro. Isso pode soar estranho aos seus ouvidos, mas logo você verá que não há contradições ou qualquer absurdo. Aqui – disse com ênfase, mostrando a sala com a mão -, tudo é muito claro e pacífico."

          Caminhou até uma cômoda, abriu uma gaveta e retirou algo.

          "Sente-se, por favor."

          Deu-me então uma fotografia antiga, no qual um homem muito parecido com meu pai posava petulante com um estranho vestuário.

         "Veja, César. Cometemos um engano. Gostávamos muito do seu pai. Mas ele não era quem procurávamos. A sua morte repentina comprovou isso. Atordoados, pedimos a Clarisse que fosse ao enterro, atrás de alguma explicação. Foi então que ela encontrou você."

          "Sim, e daí?" Perguntei desconfiado.

          "Veja por si mesmo, César." Disse meu interlocutor apontando para a fotografia.

          Fiquei muito irritado com aquele mistério sem fim.

          "Sim! Que tem esta foto de meu pai? Eu não estou entendendo nada, droga."

          "César, escute, conhecemos a sua família há muito tempo. Conhecemos você desde criança, mas nunca suspeitamos de sua identidade, até Clarisse reencontrá-lo no velório. Lá ela percebeu que era você quem procurávamos, e não seu pai. César olhe a foto com atenção."

Fotografia: Tiago Jonas

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          Olhei para foto e não notei nada.

          "Por Deus, você não percebe? E você, César."

          Olhei novamente e foi como se algo se quebrasse dentro de mim.

          Como pude não reconhecer meu próprio rosto? De reminiscência em reminiscência recobrei diversas lembranças perdidas e o pavor cedeu lugar ao espanto.

          "Agora venha, venha. Vou te apresentar ao grupo."

           O anfitrião levou-me à sala e me apresentou seus convidados. Havia seis homens e quatro mulheres. Cada nome dito e semblante revisto me despertavam "novas lembranças". Carmela, nossa empregada, estava entre eles, ela parecia mais jovem e bem disposta. Meu coração pulsava violentamente quando fui convidado a sentar com meus antigos colegas. Teríamos um jantar, acompanhado de vinho. Aos poucos percebi que o motivo da comemoração não era outro que o meu retorno.

          "Um brinde a César!". Bradou Rodolfo, o anfitrião.
Havia uma alegria extravagante naquela sala. Todos pareciam felizes. Um forte elo unia aquelas pessoas. Fui tomado por grande euforia. Meu pai havia participado daquele grupo antes de mim. Agora seria a minha vez. E Clarisse onde estaria? Será que ela tivera algo com meu pai?
          Não consegui mais conter a expectativa e perguntei:
          "Onde está Clarisse?"
          "Oh, César, isto foi o principal. O que nos levou a crer definitivamente que era você e não seu pai quem procurávamos."
          "O que?"
          "O seu amor por Clarisse. Ela virá logo."
          Alguns minutos depois Clarisse surgiu na sala. Seu corpo era jovem de novo. Ela sentou-se ao meu lado. Uma estranha sensação de bem estar invadiu meu corpo. Tudo parecia claro e pacífico para mim, sem contradições ou absurdos. Eu a amava. Fosse quem fosse que estivesse por trás daquilo, Deus ou o Diabo, eu estava feliz, como nunca antes. O Centro seria agora minha vida.

***

          Epílogo

          Existem aqueles que, por desgraça, são forçados a desaparecer. Mas também existem aqueles que desaparecem por vontade própria, que morrem pra sociedade e que renascem pra vida. Esses são os eleitos.

Ricardo Rodrigues, Rio de Janeiro, abril de 2010.